sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Permita-me a indagação insólita: será que estamos mortos e não percebemos?


Para onde quer que olhemos, por aqui, só vemos andantes pálidos, inertes e insípidos
“Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exato momento em que deixamos de ser úteis”.
Jean Paul Sartre


Que país é esse? Que mundo é esse? O que se passa na cabeça de cada ser humano, seja daqui, seja dacolá? Onde estão os indignados de todas as gerações, de todos os recantos? Nada lhes ofende, lhes mareja os olhos, lhes desperta a cólera e lhes motiva o protesto diante de tanta ignomínia? A tormenta que desce sobre as africanas terras líbias não é de sua conta?

Noites insones e dias tensos nada explicam: antes, para o meu desespero frenético não oferecem a menor chance de uma réstia de luz que enseje uma resposta, que sinalize o sintoma dessa letargia.

Meus Deus! O que estou fazendo diante de um computador ligado ao vazio de pessoas e de idéias, de cara para a inércia mais atormentadora, convertida numa contemplação pusilânime de um ritual movido a indignidades, abusos, violências, transgressões, usurpações, mentiras e hipocrisias?

Serei eu um débil mental que ainda não teve a lucidez de se olhar no espelho? Que mira pela fresta errada e não vislumbra um óbvio pútrido? Por que uma agressão criminosa a um país, agora esfacelado e desconstruído, toca a tão poucos e cada vez mais raros? Por que meio mundo se deixa entorpecer pela semântica de encomenda, pela desfaçatez do panfleto midiático enganador?

Incrível, penso em lamentos quase lacrimosos: agora que o mundo se tornou tão pequeno pela interação instantânea internáutica não seria o caso de uma mais cálida compreensão entre os seres humanos? Ou esse mundo que ficou pequeno tem o despudor de um brinquedo obsceno, uma abstração, de um exercício compensatório de ilusões forjadas?

Vi um patrono de uma turma de Direito declarar que nossa geração fracassou. No mesmo diapasão ele também se referia ao subproduto mais degenerado desse fracasso: a erupção de um individualismo desalmado nas gerações de agora, embaladas pelo metálico do som ensurdecedor ou pelo medíocre do funk que aportou entre nós como cavalo de tróia de uma gangrena mental.

E vi seus 99 formandos no culto patético de uma ansiedade ensimesmada, intelectualmente empobrecida, sem qualquer visão de contexto, como se nada lhes motivasse naquela noite de júbilo senão o olhar flamante na causa própria, no futuro pessoal, na esperança de que o mundo esteja cada vez mais conflitado para que disso tirem o seu sustento e disso façam sua razão de viver.

Vi jovens barbaramente envelhecidos pela balada altissonante do “salve-se quem puder”, o “daqui pra frente é com cada um” ou, no máximo, com o círculo de prediletos, como se o diploma conferido fosse a munição para a mais terrível das guerras, a sôfrega competição profissional nas pegadas dos exemplos herdados da esperteza como única via  da sobrevivência, do acesso ao conforto e ao prazer.

Enquanto isso, a mídia capta e exacerba todas as torpezas, fazendo delas elementos tão preponderantes no comportamento humano que nelas se inspira  no vôo cego de um cotidiano destituído de todos os valores restantes, no confronto explícito com os pulverizados pigmentos das virtudes em extinção.
Não causa surpresa que ninguém se sinta obrigado hoje em dia a reagir às barbaridades perpetradas pelos senhores do ágio e das armas, hipertrofiando a própria torpeza, num super dimensionamento da ambição voraz.

É certo alguém chegar em sua casa para determinar como deve ser sua relação com o clã? É tolerável alguém jogar seus filhos, uns contra os outros, para imobilizar a todos e se apoderar de suas posses?

Será que ninguém tem mais olhos para ver assaltos tão grotescos como os que países decadentes, endividados, em crises sistêmicas, enrolados em suas próprias pernas, promovem na maior sem-cerimônia para se apoderar das riquezas finitas de outros povos?

Você vê isso à luz do dia e não se sente nem um pouco atingido? Você quer o que, que chegue a nossa vez? Essa modernidade mal grada está nos impingindo o silencioso suicídio nacional em doses homeopáticas, está nos bestializando, nos acostumando ao convívio indolor com o massacre dos mais fracos, na configuração psicanalítica de uma apatia crônica, na qual nos servem brotos de papoulas imobilizantes encapados em papel celofane com as cores lustrosas da ilusão ótica minúscula e temporária.

Esse espetáculo da mais trágica alienação não poupa ninguém. Minha geração se repete na ladainha de um fracasso mensurado pela descontinuidade do sonho. Mas pode ser que aqueles rueiros dos anos sessenta tenham blefado e agora, lépidos e fagueiros, se desdizem no leme dos podres poderes.  

Ou, como se pode constatar, você não percebeu até que nossa vez já chegou, na intervenção sibilina e camuflada que varou a imensidão do território desguarnecido em pomposas mistificações em nome da demarcação de territórios gigantescos convertidos em flancos para a mais sofisticada pirataria alienígena?

Curioso: aqui quem quiser ver massa nas ruas só lhe resta contemplar os milhões das paradas gays e dos desfiles pentecostais.
Fora disso, meia dúzia de gatos pingados tenta chamar atenção para algumas tragédias pontuais que já não sensibilizam o povaréu. Por que a maioria já renunciou ao direito ao conhecimento, às obrigações do Estado com sua saúde e ao respeito devido à dignidade de todos.

Tal é o traste da alma humana que até a solidariedade se profissionalizou em organizações especializadas na terceirização do pensamento, da ação, da insatisfação social e dos deveres oficiais. Aqui, nesta terra invadida por Pedro Cabral, está cada vez mais difícil falar em dignidade e autoestima, eis que de migalha em migalha a massa enche o papo.

Diante desse quadro de cores pálidas veio-me uma despropositada indagação, que faço a você, envolto na mais pungente perplexidade: será que somos mortos vivos, almas penadas, corações sangrados, mentes entorpecidas e inebriadas?
Será?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A intervenção estrangeira na Líbia para além da mídia de aluguel e dos perfeitos idiotas

O mesmo "direito de agressão" poderá ser usado para nos tomarem a Amazônia

“Que tipo de guerra “popular” foi aquela? O pessoal do serviço secreto trouxe-lhe em bandeja de prata a mais recente pesquisa Rasmussen – segundo a qual, só 20% dos norte-americanos apoiam hoje o escandaloso bombardeio por EUA/OTAN, sobretudo porque aqueles panacas bombardearam civis e mais civis, até crianças. Os europeus – os que contam, gente de verdade, não os burocratas panacas de Bruxelas – estão ainda mais incomodados que os norte-americanos”.
 Pepe Escobar, Asia Times Online -20/8/2011
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Imagem da tv Al-Jazira mostra Saif al-Islam, filho de Kadhafi nas ruas de Trípoli. Espelharam aos quatro ventos que ele fora capturado pelos “rebeldes”.
Preste atenção: todo aquele que defende a intervenção estrangeira na Líbia ou está levando grana ou é um perfeito idiota. Todo aquele que diz que Kadhafi enfrenta rebeldes defensores da democracia e da liberdade ou é um perfeito idiota ou leva grana dos grandes interessados na farra do petróleo líbio, o de melhor qualidade do mundo.

Vamos e venhamos: o que está acontecendo lá é uma tremenda trapaça bélica, uma agressão explícita acobertada muito mais pela mentirada midiática de que por qualquer peça jurídica em nome da democracia.

Não estou exagerando: a mídia que embola os cérebros dos cidadãos está cheia de corruptos. Tem muito “jornalista” mais rico do que certos políticos. E tais fortunas não são colhidas só dos seus salários, por maiores que sejam. Desde priscas eras, o “por fora” sempre existiu nas áreas mais influentes das redações.Também não é pra menos. De que vive um veículo de comunicação? Da venda direta aos consumidores, nem pensar. Foi-se o tempo de jornais como o PASQUIM, que se pagava com só nas bancas. Hoje, incrivelmente, até a tv a cabo é uma grande farsa: cobra os tubos dos assinantes, mas está cheia de anúncios. Coisa estapafúrdia que ninguém quer ver.
 Outro dia mesmo, pelos telegramas pinçados daquele site demolidor, soube-se dos nomes de alguns jornalistas brasileiros que prestam serviços de informações à Embaixada dos EUA. Um deles, aliás, nem jornalista é e se mandou para a Itália para não ter de dar explicações.
Quanto aos perfeitos idiotas, eles são fabricados em séries por faculdades que tratam muito pouco dos mistérios da reportagem em seus currículos, cobram uma grana preta e mandam os garotos sem vocação e sem o mínimo da necessária perspicácia correr atrás. Se forem bonitinhos, podem conseguir uma oportunidade nas televisões e adjacências. Isso alguns: os outros bonitinhos vão tentar a vida em outras praias.
Se Kadhafi fica ou será assassinado, a esta altura não é o que se pode comentar. Porque tudo pode estar acontecendo, inclusive uma manipulação sórdida das informações, técnica usada desde o tempo do bumba.
Quando as potências estrangeiras começaram a despejar foguetes sobre Trípoli, escandalosas agências de notícia garantiram que o líder líbio havia fugido para a Venezuela. E muito bobalhão acreditou.
Pode ser até que agora, depois de 5 meses de bombardeios criminosos despejados por aviões e navios das decadentes potências ocidentais, principalmente França e Inglaterra, as condições de resistência sejam menores.
De fato, não é contra beduínos recrutados a peso de ouro que o governo luta: quem está fazendo estragos letais é a aviação estrangeira. E nisso, esses senhores das armas servem-se de uma fraude canalha e cruel: Em 18 de março, o Conselho de Segurança da ONU determinou tão somente, e não mais, fechar o espaço aéreo para impedir os vôos dos aviões líbios.
À época, escrevi que aquilo era uma grande mentira. Em horas, os norte-americanos estavam cravando foguetes no coração de Trípoli. Nada, portanto, com a fatídica resolução do conselho, manobrado pelos Estados Unidos. Resolução que, por si, já era uma aberração jurídica ao gosto do vale tudo quando se trata de dar cobertura à pirataria imperialista.
Países em que um mandato eletivo sai por uma fortuna, em que quem ganha uma sinecura trata logo de fazer seu pé de meia à custa do erário, se arvoram em símbolos da democracia e ainda se acham no direito de meter o bedelho nos países dos outros, especialmente se esse país dos outros for rico em petróleo e outras riquezas estratégicas.
Não mandam tropas nem bancam “rebeldes” em dezenas de países pobres, sob o chicote de ditaduras ferozes, algumas dedicadas ao extermínio de tribos rivais. Nessas regiões, milhares de pessoas morrem de fome todos os dias, enquanto seus tiranos vivem nababescamente, em estreita ligação com os governos da Europa e dos EUA.
A Líbia de Kadhafi não está sendo massacrada por ter um regime que permite a recondução do seu líder, algo necessário como elemento de unidade do seu mosaico tribal. Antes do coronel nacionalista, a Líbia era dominada por uma monarquia absoluta, que se impunha igualmente ao fatiamento tribal: lá há 4 habitantes por Km2, isto porque a maior parte do seu território é desértico, situação que Kadhafi está enfrentando com os mais grandiosos projetos de irrigação da face da terra.
Todos esses mercenários do computador que trabalham noite dia para fazer a caveira do coronel são incapazes de prever o que acontecerá sem ele. Os variados grupos que estão de olho no poder já brigam entre si desde o primeiro dia dos conflitos. O general que trocou o Ministério do Interior pelo comando dos insurgentes em Benghazi já foi assassinado por eles mesmos. Quem fala hoje pelos rebeldes poderá cair do cavalo amanhã.
Se finalmente Obama, Sarkozi e outros menos conhecidos puderem cantar vitória, com certeza os derrotados não serão o coronel Muammar Abu Minyar al-Kadhafi e os resistentes, mas a própria nação Libia, que ficará em petição de miséria e será dividida por gananciosas empresas estrangeiras do ramo, como aconteceu no Iraque.
Os “buchas de canhão” que foram recrutados por agentes da CIA instalados em Benghazi não terão como usufruir da mudança, porque o controle será exercido totalmente de fora através de títeres domesticados, como acontece no Afeganistão.
Democracia, pretexto para a agressão estrangeira como foi também para a ditadura que derrubou o governo constitucional de João Goulart, será uma palavra mais adequada ao folclore midiático.
Todos os esforços de progresso serão castrados e a Líbia será apenas um conglomerado de poços de petróleo, explorados sem leis e sem limites pelas companhias estrangeiras que precisam assaltar nações alheias para tirar suas metrópoles da pindaíba.
Só que ainda é cedo para os neocolonizadores cantarem vitória. Assim como a notícia da prisão dos filhos de Kadhafi não passou de um rotundo blefe, não me surpreenderá se as coisas não estiverem bem assim, como descrevem os jornalistas mercenários e repetem os perfeitos idiotas.
Se a intervenção estrangeira vingar, ninguém por estas bandas poderá chiar no dia que os imperialistas decidirem pôr na agenda a internacionalização da Amazônia.

domingo, 21 de agosto de 2011

De volta à arena política, porque esse combate é uma obrigação de que não podemos fugir

Estou me filiando ao PSB na esperança de um espaço em que possa contribuir para uma virada radical na vida pública.
"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons."
Martin Luther King

“O preço que os homens de bem pagam pelo seu desinteresse da política é a qualidade dos políticos".   
 Platão

Voltar à praça pública para tentar reacender a confiança dos cidadãos é  nosso dever
 
Estou retornando à vida partidária. Depois de três meses de consultas, nesta quarta-feira, dia 17 de agosto, entreguei minha ficha de filiação no Partido Socialista Brasileiro ao professor Marcos Villaça, secretário do partido, num almoço na Taberna da Glória, com a presença do secretário de organização, Moisés Silva, e o “de acordo” do garçom João Batista, brizolista desde a volta do caudilho.
 
Devo lhe dizer que esta  foi provavelmente a decisão política mais pensada que tomei ao longo dos meus 68 anos. E não significa apenas a intenção de candidatar-me, em 2012, à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, casa em que desempenhei mandatos em quatro legislaturas.

Mais do que isso, creio ter encontrado um espaço, aqui no Rio de Janeiro, para apoiar uma atividade partidária séria, que vá muito além dos limites eleitoreiros. Espaço que será ainda mais fortalecido na medida em que pessoas com a mesma identidade crítica também se incorporem, entendendo que não basta ficar falando de fora, enquanto os maus elementos usam mandatos, cargos públicos e cidadelas partidárias unicamente em benefício próprio e dos seus financiadores.

Em princípio, a direção estadual do PSB deve marcar para a segunda semana de setembro, provavelmente dia 12, para um ato público em que serei formalmente recebido. Esse evento será importante para pautar de forma indelével a natureza mais profunda dessa aproximação, que preservará o respeito por minha total independência, enquanto jornalista.

A pena como arma na luta pela verdade e justiça

Quem me honra com a leitura dos meus comentários desde os idos da TRIBUNA DA IMPRENSA pode testemunhar o despojamento com que procuro contribuir de forma crítica e independente para uma efetiva transformação social no Brasil e para o respeito à soberania dos povos: são 50 anos passados desde que o destino – e não uma faculdade – me fez repórter comprometido com a verdade e a justiça, compromissos que me custaram o sofrimento da tortura, da prisão arbitrária e da mutilação da minha própria carreira profissional.

Meus parceiros não têm dúvida quanto à minha natureza – por vezes quixotesca – que me fez sempre presente em uma trincheira, sem escolher ferramentas, incluindo minha obra teatral em plena ditadura – 8 peças encenadas com sucesso de 1972 a 1982 – expressão artística do inconformismo, o que me valeu também a perseguição implacável da censura, com a proibição de duas delas, uma no dia da estréia.

Por isso, tenho orgulho de minha biografia. Até mesmo os muitos erros cometidos brotaram das mais puras intenções. Em nenhum momento deixei-me impulsionar pelo interesse mesquinho, pela deslealdade, pela ambição pessoal e pelo desrespeito aos princípios cimentados desde a adolescência, ainda na década de 50, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, naqueles calorosos debates em que conheci Roberto Amaral, hoje uma dos grandes próceres do PSB.

Naqueles tempos, imagine, já via correr nas minhas veias o sangue quente dos indignados. Já aflorava  uma relação apaixonada com a causa pública, a que me dediquei com o sacrifício da minha juventude.

Com a volta da vida democrática, filiei-me ao PTB e, depois, ao PDT, quando arrancaram a sigla história das mãos do seu mais legítimo continuador. Permaneci fiel a Brizola até sua morte e estaria no mesmo partido se não fossem as novas companhias tão conflitantes com o ideário original da legenda e a predominância de um pragmatismo açodado e desfigurador.

Saindo da sombra e indo à luta de peito aberto

Até o almoço da quarta-feira passada, por vários anos circunscrevi meu combate à palavra. Não parei de escrever, mesmo quando os interesses das elites inviabilizaram a TRIBUNA DA IMPRENSA. Fortaleci meu blog e meu jornal por correspondência. Não me rendi jamais, não calei um instante.

Poderia continuar nos limites das minhas colunas, que posto em dias incertos, no uso pleno da liberdade de um aposentado. Mas vi que isso acaba sendo uma opção pelo mais cômodo, pelo entrincheiramento na minha casa confortável, no sopé da serra dos Três Rios.

Enquanto isso, as casas legislativas ficam cada vez mais expostas ao que há de pior na política. As câmaras municipais, então, nem se fala. O clientelismo, a truculência das milícias e dos poderes paralelos, a interferência do poder econômico corruptor bancando campanhas milionárias, assim como o uso abusivo da máquina oficial compõem uma aquarela berrante, em que poucos edis exercitam suas obrigações – legislar, fiscalizar e representar.

Isso leva o povo a abrir mão do peso do seu voto num estado democrático de direito. A descrença chega a ser patética. Um mês depois das eleições de 2010, 40% dos eleitores já não lembravam em quem tinham votado para deputado. Nada mais assustador.

Não e não. Eu, Pedro Porfírio, com todo um passado de lutas, não posso ficar sentado a um computador vendo acontecerem tantas barbaridades e estelionatos políticos. Tenho que voltar à luta no corpo a corpo das ruas, sim. Nem que isso represente o sacrifício de quem, nessa idade, já não goza das condições de saúde ideais.

Não posso enclausurar-me na crítica caseira num momento em que há sinais de mudanças corajosas no ambiente do poder: há claros indicadores de que a impunidade perde terreno e uma nova odisséia cirúrgica se descortina, precisando somar apoios que ajudem a demolir o poder de chantagem que faz dos legislativos antros de negociatas e pressões inescrupulosas.

O porque da opção pelo Partido Socialista

Como disse no início, escolhi o PSB depois de conversar com vários partidos. Fiquei enojado com a postura de alguns, que avaliavam “pragmaticamente” minha possível adesão: se fosse para ajudar a eleger quem já tem mandato, tudo bem. Mas se oferecesse risco, aí já não interessava.

Foi em alguns dirigentes do PSB que sintonizei preocupações políticas mais profundas. Participei de debates públicos sobre a reforma política, com a presença do presidente estadual, deputado Alexandre Cardoso, do cientista social Jairo Nicolau e do vereador Rubens Andrade, um professor que no seu terceiro mandato se mantém coerente com as mesmas idéias de sua juventude: em 2002, foi o único que se dispôs a ir comigo ao Oriente Médio, numa missão permeada de riscos.

Esse ambiente de debates amplos é um caminho que ajudará a uma visão mais consistente da atividade política e serve para revelar vocações, já que as universidades e as organizações classistas acomoraram-se  na penumbra. É o que se pode fazer de melhor no âmbito dos partidos para que eles possam cumprir suas responsabilidades e, quem sabe, ajudar a resgatar o mínimo de credibilidade junto à população.

Melhor será ainda quando a discussão voltar à praça. Aí  poderemos acender uma fagulha que leve os eleitores a um melhor entendimento da sua própria responsabilidade diante de um país que se move tensamente num enigmático mundo em decomposição.

Socorre-nos, felizlmente,  a força que ganha a internet, com apenas 20 anos de existência. Graças a ela, o mundo ficou pequeno com as imensas possibilidades de comunicação, que estão nos libertando do monopólio midiático. Neste momento, apesar das resistências e da má vontade das áreas oficiais, 43 milhões de brasileiros já acessam a banda larga. No mundo, a cada minuto, 168 milhões de e-mails são enviados, 98 mil tweets são publicados, 694 mil consultas são feitas ao Google, 695 mil atualizações de status no Facebook, enquanto publicam 510 mil comentários e fazem 79 mil ponderações no mural.

A internet abriu um vasto campo de manifestação e conscientização, inclusive para os mais velhos. Entre os que responderam à minha pesquisa, pelo menos 35% tinham mais de 60 anos. Há milhares de listas de encaminhamento de matérias: há um terreno fértil para a reprodução da indignação popular e, através da rede, centenas de protestos são convocados em todo o mundo.

Dito tudo isso, venho à sua presença pedir sua opinião. Você acha que ainda posso contribuir na disputa de um mandato parlamentar? No caso afirmativo, você terá como engajar-se ao meu lado, mesmo à distância?

Não esqueça de que continuo com a mesma independência de sempre e só disponho do poder da palavra para disputar uma eleição. A viabilidade de uma campanha, a essa altura da vida, depende principalmente dos que acreditam nessa palavra, transformando-se em agentes de nossa proposta.

Em síntese, a ajuda de quem acredita no meu bom combate é imprescindível.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A execução da juíza Patrícia Accioli e a indignação do desembargador Siro Darlan

Há muito mais pólvora do que se imagina nos 21 tiros  que alvejaram a magistrada

“Doravante, será mais do que suficiente um olhar de soslaio do réu para que o juiz assine – trêmulo, mas de pronto – o alvará de soltura. Eu, no lugar de qualquer deles, assinaria. Você não?”
Desembargador Siro Darlan de Oliveira, da 7ª Câmara Criminal do Rio de Janeiro.


Desde sexta-feira passada estou tentando escrever sobre um dos mais escabrosos episódios da rotina tétrica de impunidade incrementada por todo um misterioso complexo criminoso, no qual as chamadas milícias são apenas sua expressão mais grosseira.

Com a experiência de 50 anos reportando os fatos, reuni tantas informações e cheguei a tais conclusões que acabei abatido por um estranho sentimento da inutilidade de pôr tudo no papel.

Vi-me mais uma vez impulsionado a cutucar uma penca de onças com varas curtas. Mas os cabelos brancos interferiram no pulsar do meu cérebro nervoso e alcançaram seus recônditos com uma carga pesada de entorpecimento. De que adiantaria ir fundo para oferecer uma peça acusatória que iria muito além da investigação policial em curso?

Procedimentos recentes no âmbito do Judiciário sugerem uma lógica inibidora. Não me sinto em condições de ousar mostrar as vísceras de um estranho mundo, cuja deformação ameaça o que se chama sem convicção de estado de direito.

Porque a salva de 21 tiros que prostrou Patrícia Accioli, a juíza de verdade, partiu de muitos gatilhos. Não foi por acaso que dispararam tantas balas. Não pretendiam apenas matar uma magistrada corajosa – a fartura mortífera alcançaria – como alcançou - toda uma sociedade em sobressalto, repassando um recado aterrorizante assinado por um amplo espectro criminoso.

Nas minhas pesquisas, as declarações do desembargador Rogério de Oliveira Souza, um dos magistrados mais brilhantes e dignos do Tribunal de Justiça fluminense, tornou-se uma referência. Ele lembrou que há um ano e meio a juíza Patrícia Accioli esteve no Gabinete do então presidente do TJ, desembargador Luiz Zveiter, para pedir o restabelecimento de uma escolta que lhe foi tirada em 2007.

A partir daí, a polêmica sobre a omissão do presidente e os fatos relacionados com o abandono da juíza, literalmente entregue às feras, passou a ocupar o noticiário com inevitável ênfase. Já se sabe hoje de boa parte da verdade que fez dessa juíza uma solitária combatente do crime organizado, sem cobertura dos seus superiores.

Algo que se traduz num patético exercício da teimosia quixotesca.

Hoje, porém, senti-me encorajado a tentar reproduzir o clima de revolta e insegurança que o assassinato de Patrícia Accioli, a juíza de verdade, disseminou.

Mas, daqui para frente, vou preferir levar ao seu conhecimento uma das obras mais corajosas e lúcidas escritas a respeito. Refiro-me ao artigo do desembargador Ciro Darlan, outro admirável magistrado, que expôs sua indignação com a autoridade de um verdadeiro paladino do direito e da verdade, cuja trajetória aprendemos a respeitar desde sua emblemática atuação como juiz da Infância e da Adolescência.

O que ele escreveu, sim, pode ser o resgate da esperança no Poder Judiciário, ainda que tímida esperança. Porque, como ele, outros magistrados estarão refletindo sobre esse ambiente sórdido que permitiu a execução sumária da juíza criminal de São Gonçalo.

Veja o que Siro Darlan postou em seu blog às 18 horas e 8 minutos do dia 13 de agosto de 2011.

"Não se esqueça de Patrícia Accioli

DO INSULTO À INJÚRIA

http://www.blogdosirodarlan.com/?p=130

Pouco mais de 24 horas se passaram desde que a juíza Patrícia Lourival Accioli foi chacinada. Quando se pensava que a covardia desse ato ficaria restrita a ele próprio – um insulto em forma de cusparada de sangue na cara do país -, se vê a ele somada a injúria da empáfia das autoridades públicas, especialmente as do Judiciário do Estado do Rio de Janeiro.


O atual presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro se apressa em justificar o injustificável: o motivo para uma juíza que até as paredes do fórum de São Gonçalo sabiam ameaçada de morte estar completamente à mercê de seus matadores é singelo: ela não requisitara proteção, por ofício. Não obstante, sem ofício, ou melhor, de ofício, sua segurança, conforme avaliação (feita por quem? com base em que critérios?) do próprio tribunal, havia minguado na proporção inversa do perigo a q ue a juíza diariamente se via submetida.


Fica, assim, solucionado o crime: Patrícia cometeu suicídio. Foi atingida por si mesma, 21 vezes, vítima de sua caneta perdida, que se encontrava a desperdiçar tempo mandando para a cadeia milicianos e todo tipo de escória que cresce à sombra do Estado, de sua corrupção e de sua inoperância. Patrícia era uma incompetente, uma servidora pública incapaz de fazer um ofício! Não é isso que o senhor quer dizer, Presidente?


Que vergonha, Exa.! Por que no te callas? Melhor: renuncie ao seu cargo. No mínimo será muito difícil seguir à frente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, com a morte de Patrícia em suas costas. Ela está agarrada ao seu corpo e ao do seu antecessor, como uma chaga pestilenta. Sua permanência no ambiente dá asco e ânsia de vômito.


Qualquer pessoa que assistisse ao noticiário televisivo, que lesse jornal ou que tivesse acesso a algum out ro veículo de imprensa nacional tinha conhecimento da situação de Patrícia e de que sua vida estava em risco. Não a Presidência do TJRJ. Segundo palavras do ex-presidente daquele órgão, seu único contato com a juíza se deu numa ocasião em que esta por ele foi chamada para prestar esclarecimentos a respeito de um entrevero que tivera com um namorado. O fato chegou às folhas e S. Exa., o então Chefe do Judiciário, se sentia no dever de agir logo, chamando às falas (sem ofício) a subordinada que colocava em cheque a imagem do Poder por ele gerido. Mas, para proteger a vida de Patrícia – ah, aí é querer muito! – era fundamental um ofício!


E fico a pensar: em quantas vias? 21? As cópias deveriam ser em carbono azul ou seria possível usar um modelo vermelho sangue? Era necessário que a magistrada juntasse ao expediente um mapa com a localização do Fórum de São Gonçalo, talvez? Ou um comprovante de residência? Atestado de bons antecedent es? Declaração dos futuros assassinos afirmando que a ameaça era real (a lista encontrada com o “Gordinho” não tinha firma reconhecida, nem era autenticada, afinal).


Não tentem ler a minha mente, sem antes chamar um exorcista.


Magistrados de primeira instância, uni-vos! Vossa integridade física está à mercê da fortuna. Vossa vida a depender de uma folha de papel. Vossas famílias nas mãos de mentecaptos.


Marginais e milicianos em geral devem estar com a dentadura escancarada num esgar de romance policial. Bastaram duas motos, dois carros, um bando de vermes, 21 tiros e poucos segundos para derrubar o castelo de cartas que era a imagem da Justiça no Estado do Rio. Com tão pouco se revelou a podridão de um reino de faz-de-conta, o que contrasta com o quanto foi necessário para liquidar uma mulher só.


Um Poder sem força, sem visão, sem preparo; um setor do serviço público que se transformou, em verdade, num a grande empreiteira; quando não em um balcão de negócios (quebre-se o silêncio!).


É inacreditável que a mais alta autoridade judicial do Estado sequer ruborize ao dizer que a proteção de uma juíza comprovadamente listada como alvo da milícia dependia de um pedido escrito. A declaração do magistrado-mor revela aos interessados em seguir matando juízes que o “Poder” por ele administrado não tem a menor idéia da realidade enfrentada pelos julgadores de primeira instância. Precisa ser provocado, cutucado, instado. O pleito de auxílio aos que dele carecem deve passar por um processo, um crivo que, como se viu, é muito eficiente, se o resultado perseguido for a eliminação daquele que precisa ser protegido. O Judiciário não realiza, por sua conta, qualquer controle, não mantém investigação permanente, não monitora seus inimigos: é um Poder-banana.


Os juízes de direito, de agora em diante, se transformaram na versão nacional do dad man walking (expressão gritada pelos guardas quando acompanham os sentenciados até o local da execução, nos presídios com corredor-da-morte, nos EUA). Os próximos serão os promotores, os delegados de polícia (os agentes penitenciários já são eliminados de há muito, assim como os jornalistas), os homens de confiança do Secretário de Segurança e este mesmo. Governador, tremei. Quem há-de impedir que isso ocorra?


A temporada de caça está aberta. A porta do Judiciário era sem trinco e agora não adianta colocá-lo. Tarde demais. Até que a Justiça se mova e organize um sistema de autodefesa pró-ativo (e não movido à base de papeluchos), muitos perderão a vida. O crime não precisa se organizar. Basta conhecer o endereço do juiz, discando 102.


Pior: doravante, será mais do que suficiente um olhar de soslaio do réu para que o juiz assine – trêmulo, mas de pronto – o alvará de soltura. Eu, no lugar de qualquer deles, assinaria. Você não?


Bem-vindos à terra sem lei, sem vergonha e sem senso de ridículo.
Não se esqueçam de Patrícia Accioli!"

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Os Estados Unidos estão falindo e nós vamos pagar o pato

Como disse Delfim Neto, essa crise é mais uma obra dos bandidos do Wall Street

“Com um déficit orçamentário perpétuo impulsionado pelo desejo de lucros do complexo militar e de segurança, a causa real do enorme déficit do orçamento dos EUA está fora de discussão”.

Paul Craig Roberts, ex-editor do Wall Street Journal e ex-secretário assistente do Tesouro no governo de Ronald Reagan

 Timothy Geithner, Christina Romer, Obama e Lawrence Summers. Uma equipe econômica sob medida para servir aos interesses dos especuladores do Wall Stret


Em entrevista no Canal Livre da Tv Bandeirantes deste domingo, dia 7 de agosto de 2011, o ex-ministro Delfim Neto, que não é nenhum esquerdista, antes pelo contrário, afirmou categoricamente que essa crise nos Estados Unidos é obra de bandidos – os mesmos que forjaram a débâcle de 1929.

Antes, no dia 25 de julho, o economista norte-americano Paul Krugman escrevera no New York Times: “Para aqueles que conhecem a história da década de 1930, o que está ocorrendo agora é muito familiar. Se alguma das atuais negociações sobre a dívida fracassar, poderemos estar perto de reviver 1931, a bancarrota bancária mundial que alimentou a Grande Depressão”.

Na segunda-feira, dia 8, enquanto as bolsas de todo mundo despencavam, os “investidores” compravam adoidados os títulos do Tesouro norte-americanos, cujo rebaixamento, por uma agência de risco demoníaca, elevara a taxa de adrenalina dos acionistas à beira de um AVC. Dá para entender?

Crise conjuntural e política, conversa para boi dormir

Diz-se que o mais recente reboliço made in USA é conjuntural e político. O bate-boca no Congresso por conta da necessidade de elevar o teto da dívida teria engendrado a overdose da insegurança que pôs o mundo inteiro com as barbas de molho. Será?

Já em 2008 foi aquela pasmaceira, que se irradiou pelos quatro cantos do mundo em ventos uivantes e fez a fina flor amarelar. Obama assumiu na tempestade e, apesar da retórica envolvente, acabou dando o dito pelo não dito. Preferiu surfar na onda a dar um chega pra lá, limitando-se a algumas encenações, segundo o receituário do Wall Street, o covil da mais refinada bandidagem, e empurrou a tudo com a barriga.

Paul Krugman, proeminência de sua torcida organizada no mundo acadêmico, diz agora que ele se perdeu na selva de pedra. “O foco da política econômica foi desviado da criação de empregos e do crescimento para o problema da redução do déficit. Mas a economia não estava saindo do buraco. É verdade que a recessão chegou ao fim dois anos atrás e a economia escapou de uma derrapada assustadora. Mas em nenhum momento o crescimento se mostrou adequado levando-se em consideração a profundidade do mergulho inicial. Quando o desemprego aumenta tanto quanto o que vimos de 2007 a 2009, é preciso criar muitos empregos para compensar. E isso não ocorreu” – escreveu.

Estamos, portanto, diante apenas de erros de enfoque? O jornalista Matt Hartley, do diário canadense “National Post”, fez uma constatação esquisita, mas sintomática: ele notou que o Tesouro teve um saldo de US$ 73,768 bilhões no balanço operacional do dia 27 de julho, enquanto a Apple, segundo os dados mais recentes, tem US$ 75,876 bilhões em caixa. Claro que o próprio descobridor da pólvora fez uma comparação despropositada. Mas, de fato, o governo norte-americano está na pindaíba.

O rabo preso com a indústria de guerra

E não se manca, porque tem rabo preso com a indústria da guerra. Essa, sim, deita e rola e o mundo que se dane. Ela tem necessidade de dar saída aos seus foguetes de 1 milhão e meio de dólares e a Casa Branca não lhe nega fogo, independente de quem esteja fazendo suas traquinagens no salão oval.

Isso não se fala, como de hábito. Sem os “aditivos de emergência” o orçamento do Pentágono de 2011/12 vai fisgar 19,27% ou US$ 712,7 bilhões do total de US 3,699 trilhões, isso sem falar nos U$ 120,5 bilhões só em gastos com os veteranos de guerra. Não é pouca coisa, não.

Deduzidos os R$ 678,5 bilhões para a rolagem da dívida pública, o orçamento efetivo do Brasil para este ano, é de R$ 1,39 trilhão. Somando investimentos e custeio, incluídas as despesas da seguridade social e os investimentos das estatais. Convertendo as moedas, veremos que os gastos de guerra dos Estados Unidos equivalem quase a todo o orçamento brasileiro.

No início de março, antes das agressões com foguetes Tomahawk (que custam US$ 1,5 milhão de dólares cada) disparados contra a Líbia (106 só no primeiro dia), Amy Goodman dizia no programa Democracy Now, retransmitido por 900 emissoras norte-americanas: “Enquanto o noticiário internacional se concentra nas revoltas no Oriente Médio e no norte da África, os Estados Unidos seguem alimentando suas duas guerras prioritárias no Iraque e no Afeganistão. Os custos para sustentá-las estão afetando diretamente os orçamentos dos estados e da União. Os EUA gastam cerca de 2 bilhões de dólares por semana somente no Afeganistão, o que representa cerca de 104 bilhões de dólares ao ano – isso sem incluir o Iraque. Cerca de 45 estados mais o distrito de Columbia projetam déficits orçamentários de um total de 125 bilhões de dólares para o ano fiscal de 2012. As contas são simples: o dinheiro deveria ir para os estados, em lugar de ser gasto em um estado de guerra”.

Quem dá as cartas quer ver o circo pegar fogo

Ainda em março, Paul Craig Roberts disse poucas e boas sobre os gastos militares dos EUA. Roberts não é qualquer um: ex-editor do Wall Street Journal, foi secretário assistente do Tesouro no governo de Ronald Reagan.

Com a verve de quem entende do riscado, espinafrou: “As oligarquias dominantes atacaram novamente, desta vez através do orçamento federal. O governo dos EUA tem um enorme orçamento militar e de segurança. Ele é tão grande quanto os orçamentos do resto do mundo somados. Os orçamentos do Pentágono, da CIA e da Segurança Interna representam US$ 1,1 trilhão do déficit federal que a administração Obama prevê para o ano fiscal de 2012. Este gasto deficitário maciço serve apenas a um único propósito – o enriquecimento das companhias privadas que servem o complexo militar e de segurança. Estas companhias, juntamente com aquelas de Wall Street, são quem elegem o governo dos EUA”.

Desde que, na década de 50, o general-presidente Dwight David Eisenhower detectou os poderes fulminantes do complexo industrial-militar, o predomínio dos interesses bélicos ganhou sofisticação e mesclou-se com a meia dúzia de três ou quatro que controla o Wall Street – gente que tem ligações remotas com a mais longa das guerras, a que garante a expansão do Estado sionista no propósito estratégico de apoderar-se do petróleo árabe e exercitar o delírio do “povo eleito”.

Essa gente não tem pátria, não tem pai, nem mãe. Banca as bilionárias campanhas eleitorais e ganha como bônus a hegemonia dos governos dos dois partidões de lá, vide a equipe de Obama. Essa gente tem metas que extrapolam a fronteira norte-americana, é coisa de raiz milenar.

Com base em suas panacéias, os Estados Unidos estão fechando suas fábricas e indo produzir em países que dominam ou pretendem dominar, sob a alegação de que é mais vantajoso explorar a mão de obra local. Curiosamente, só não transferem a indústria de guerra.

O que enerva o mundo nestes dias é apenas mais uma ferida que sangra numa economia combalida, que para conservar as aparências tem de recorrer a golpes sequenciais, aproveitando-se da plataforma em que ainda se encontra, tendo a maior parte dos países do mundo a seus pés.

Mas não se iluda: de ferida em ferida, mais dia, menos dia, o império vai desabar. Justo, na nossa cabeça, com a conta amarga assumida por quem vive para pagar o pato.
Para ver a entrevista de Delfim Neto, CLIQUE AQUI

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Na troca de Jobim por Amorim, muitos coelhos numa só cajadada

Ministro arrogante e grosseiro não gostou da suspensão da compra dos caças franceses. E vinha se excedendo no  acordo militar com Israel.

- “É muita trapalhada. A Ideli é muito fraquinha e a Gleisi nem sequer conhece Brasília”.
Nelson Jobim, referindo-se a duas ministras nomeadas por Dilma em entrevista à revista “Piauí” .
- “Só faltava essa”.
Dilma Rousseff, reagindo à mais essa provocação do seu ministro, horas antes de demiti-lo.

Ao demitir Jobim, Dilma mostrou que não tem medo de bicho papão
Com a demissão do “intocável” Nelson Jobim e a nomeação do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa, a presidente Dilma Rousseff matou uma porção de coelhos de uma só cajadada.

O significado mais profundo desses atos ainda há de ser vasculhado pelos raros analistas íntegros que ainda sobrevivem, apesar dessa epidemia de penas de aluguel mesclada com o domínio midiático pela insuficiência mental.

Mas é preciso deixar claro, desde já, que a primeira presidente mulher do Brasil, credora de uma surpreendente confiança “ampliada” dos cidadãos, mostrou que não tem medo de bicho papão – e que é muito mais corajosa do que a penca de machos que fez da arte de engolir sapos a fórmula viciada de garantir a governabilidade.

O grandalhão Nelson Jobim, ministro nos governos de FHC e Lula, que se confessou responsável por artigos na Constituição de 88 enxertados por baixos dos panos, vinha se dedicando a todo tipo de provocação com o objetivo explícito de desautorizar a presidente da República, em atitudes grosseiras, mas programadas, que passavam dos limites, como se ele fosse uma reedição caricata dos outrora poderosos generais treinados nos Estados Unidos.

Contrariado pela suspensão da compra dos caças franceses

E não se prestava a essa escalada agressiva por acaso. Ele começou a minar o governo a partir da decisão da presidente Dilma, em fevereiro passado, de suspender a compra de 36 caças franceses, um negócio de R$ 11 bilhões, no qual, por influência sua, o governo brasileiro optara pelos aviões mais caros, desprezando a melhor oferta da Suécia.

Por vaidade ou por outras razões que a própria razão desconhece, ele perdeu a serenidade diante da decisão da presidente, que se considerava constrangida a fechar o negócio numa hora em que determinava o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento.

Essa contrariedade de Jobim é deliberadamente escamoteada das análises sobre seus conflitos com Dilma. Mas o pessoal da corte sabe muito bem que ele nunca digeriu a determinação da presidente, que o deixou mal na fita: O presidente Sarkozi fora informado que sua permanência no Ministério da Defesa era a garantia pétrea de que a francesa Dassault já havia papado essa venda com os seus caças “Rafale”.

No dia 19 de novembro passado, já depois da eleição de Dilma, Jobim teve uma conversa reservada com a então ministra da Economia da França, Christine Lagarde, na qual afiançou que o compromisso assumido por Lula, sob sua influência, ia ser cumprido ao pé da letra.

Os dois participaram de uma jantar na Câmara de Comércio Brasil-França em homenagem ao ex-presidente. Em público, Jobim foi peremptório, ao justificar a preferência pelo avião mais caro: “Não estamos comprando caças, mas um pacote tecnológico. Esse é o fator principal. Estamos comprando conhecimento, sem conhecimento não tem negócio”. Já Christine Lagarde não se fez de rogada: “Faremos tudo que for possível para ganhar (a venda)”.

Mesmo depois do anúncio da suspensão da compra, este ano, Jobim manteve os franceses confiantes, apesar do relatório da Aeronáutica, de 27 mil páginas, ter concluído pelo modelo sueco, que não só é mais barato, como também tem um custo de manutenção muito mais baixo. Na cotação de preços, o pacote francês saia por U$ 6,2 bilhões (o preço original era de U$ 8,2 bilhões), enquanto o modelo sueco Gripen NG saia por US$ 4,5 bilhões(e ainda podia baixar mais), e o norte-americano F-18 Super Hornet custaria US$ 5,7 bilhões.

Apesar disso, Jobim empenhou sua palavra aos franceses. Dilma tomou a decisão final de suspender o negócio quando soube de uma reunião promovida pela Dassault em São José dos Campos, no início de fevereiro, na qual a francesa já estava montando suas parcerias com empresários brasileiras. Então,  ela  assinou pré-acordos com dez empresas. No total, já havia firmado 49 pré-acordos com companhias do país.

Jobim ficou realmente sem jeito e não teve outra saída senão ir a Paris, na segunda semana de julho, explicar a mudança pessoalmente ao presidente Sarkozi e aos executivos da Dassault. Ele alegou que até o final do ano a presidente daria prioridade a “assuntos internos do Ministério da Defesa”, mas em 2012, o processo original seria resgatado. Em maio, a própria Dilma havia informado ao governo sueco da sua disposição de reavaliar os trâmites, o que significava dizer de sua disposição de priorizar a opinião da área técnica da Aeronáutica.

Celso Amorim, a resposta que embarreira certos acordos

Ao contrário do que especulava a mídia – e nessa caíram até certos escribas independentes – o substituto de Jobim será o ex-ministro Celso Amorim e não o ex-governador Moreira Franco, que envolveu o seu amigo Michel Temer e outros poderosos da corte uma frenética articulação em seu favor.

É cedo para entender a escolha, mas é provável que Dilma queira com Celso Amorim   dar um freio na postura inconveniente do Ministério da Defesa, a partir da assinatura do acordo militar com Israel, em novembro de 2010.

Por conta desse acordo, o Brasil passou fazer todos os gostos da indústria bélica israelense, como escreveu Laerte Braga: “autoridades militares brasileiras declararam publicamente ter ajudado empresas israelenses de armas a entrar em contato com as forças armadas de outros países latino-americanos”.

E foi mais longe em seu relato:
“Três empresas brasileiras de armas foram compradas por Israel, a AEL, a ARES AEROESPECIAL E DEFESA S/A e PERISCÓPIO EQUIPAMENTOS OPTRÔNICOS S/A. São inúmeros contratos com as forças armadas brasileiras, envolvendo o PROJETO GUARANI e espera – Israel – conquistar contratos para os Jogos Olímpicos e Copa do Mundo – segurança, o que no caso de Israel significa barbárie.

Israel Aircraft Industries (IAI) formou uma joint venture (espécie de parceria, associação) denominada EAE com o grupo Synergy. Uma subsidiária da IAI, a Bedek, usa os centros de manutenção e de produção da TAP M & BRAZIL (notem que já está com “Z”), nos aeroportos do Rio de Janeiro e Porto Alegre. Estas informações podem ser encontradas no STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. (Veja íntegra do artigo de Laerte Braga  no blog da Rede Castorphoto) .

Há que se observar a reação imediata dos sionistas à indicação de Celso Amorim. O jornal Estadão já iniciou a temporada de intrigas, ao se referir a um suposto mal-estar, sem identificar suas supostas fontes: “A indicação do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa já está provocando reações contrárias em Brasília. Militares dos altos comandos das Forças Armadas consultados pela reportagem consideraram esta "a pior escolha possível" que a presidente poderia ter feito”.

E disse mais, numa redação que cheira a encomenda: “Segundo esses interlocutores, Amorim contrariou "princípios e valores" dos militares nos últimos anos quando esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores e até ex-ministro Nelson Jobim contornava as polêmicas causadas por decisões "completamente ideologizadas" de Amorim”.

Seja o que for, com suas escolhas recentes, a presidente Dilma Rousseff vem ganhando a admiração até dos seus não-eleitores por conta de suas decisões desassombradas, capazes de revelar um modelo de governança à prova de bala e de outras coisitas mais.

domingo, 31 de julho de 2011

No prelúdio nababesco as bolinhas anunciam a gastança perdulária

30 milhões incinerados num único evento mostram o  saco sem fundo de uma bolha ilusória
Blatter, Eduardo Paes, Sérgio Cabral e Ricardo Teixeira: aliados no mesmo engodo

"Em janeiro de 2011, o Ministério do Esporte apresentou previsão de R$ 5,6 bilhões para 11 sedes, sem o custo do Itaquerão. Em junho, a previsão de gastos já chega a cerca de R$ 7 bilhões. Ou seja, somente o custo dos estádios já triplicou, considerando a previsão inicial de R$ 2 bilhões, em 2007".
Romário, ex-campeão mundial e deputado federal

Trinta milhões de reais no prelúdio extravagante do maior alçapão já montado pelos assaltantes do colarinho branco. Trinta milhões saídos dos cofres da Prefeitura carioca e do Estado do Rio de Janeiro, que mantêm professores e todo o funcionalismo a pão e água, muitos pagando para trabalhar. Que sonegam à população o direito fundamental à educação razoável e à saúde básica, tornando-a presa fácil dos tubarões do ensino e do impiedoso sistema privado de assistência médica.

Trinta milhões para a exibição de luxo e riqueza, num evento de duas horas, cuja única finalidade era sortear as bolinhas das chaves eliminatórias da Copa do mundo de 2014, tudo segundo o figurino perdulário de uma máfia sem qualquer recato, a máfia multinacional da Fifa. Todo esse dinheiro foi disponibilizado de mão beijada aos esquemas da filha de Ricardo Teixeira, mafioso de carteirinha, que não terá obrigação de nos prestar contas pelo atalho contábil forjado na transferência blindada do dinheiro público a uma entidade privada.

Esse aperitivo faraônico que teve como cenário a Marina da Glória, do todo poderoso Eike Batista, é pinto diante da arquitetura de gastos irresponsáveis concebida para os dois eventos esportivos, que, por coincidência, acontecem em sequência num único embrulho, gerando uma bolha ilusória em dobro, na mesma sem-cerimônia dos comerciais de cerveja que, depois de instigar o consumidor a um porre, termina com um letreiro rápido de “beba com moderação”.

O espetáculo platinado é apenas, como se poderia dizer, a ponta de um iceberg colossal, que nutre a roubalheira de um script sedutor, revestindo com purpurinas cintilantes a rasteira em um povo já acostumado ao “me engano que eu gosto”.

É como se estivéssemos diante de um mau presságio explícito, de um grande golpe anunciado.

Conversas para enganar os trouxas

Diz-se que sediar a copa de futebol e os jogos olímpicos mundiais tem o condão de alavancar a vida econômica do Brasil, aumentar o PIB e, em particular, reposicionar a cidade do Rio de Janeiro no topo das metrópoles endeusadas. Propaga-se, na maior cara de pau, que a farra homérica de 2014 redundará no aumento das nossas exportações em 30%. E muito mais se diz na carrada obscena de engodos mirabolantes.

Por tal, o vale tudo corre solto. Qualquer excesso será compensado pelo orgulho das visitas esperadas, pela centralização das imagens esportivas que chegarão a todos os cantos do mundo, imagens televisivas que, aliás, serão a única forma dos brasileiros verem os espetáculos, a menos que tenham como morrer numa grana preta nos ingressos que terão o custo médio de um salário mínimo.

Não há arcabouço mais adequado para a rapina. Pelas fórmulas engendradas, o assalto acontecerá em nome das exigências supranacionais dos magos da Fifa e do Comitê Olímpico Internacionais. Se não for como querem, o pau come.

Na copa de futebol, primeira parada do trem da alegria dos “sanguessugas” do erário, a extravagância é ampla, geral, e irrestrita. O vale tudo começa pela festa nababesca que custou aos contribuintes o equivalente à construção de 6 escolas públicas para 400 alunos cada, e passa pelo esbanjamento faustoso com estádios de futebol, pelas renúncias fiscais, envolvimento do BNDES no folguedo e a pela privatização-doação emoldurada dos aeroportos lucrativos.

No caso dos estádios, até a inteligência mais limitada é agredida. No Maracanã, a construtora do amigo íntimo do governador (em sociedade com outras duas empreiteiras) vai faturar 1 bilhão e lá vai picos na terceira reforma em menos de 12 anos. Em São Paulo, o estádio particular da Odebrecht-Coríntias terá só de renúncias fiscais da Prefeitura mais de 420 milhões de reais e ainda receberá uma boa grana do governo do Estado e do BNDES. Só a isenção representa deixar de construir 84 escolas para 33.600 alunos.

Extravagâncias ao gosto dos picaretas
Em Manaus, Brasília e Cuiabá, a extravagância tem os sintomas da insensatez mais tresloucada. Nessas cidades, onde se joga futebol da várzea, o dinheiro público será queimado já se sabendo que os estádios erguidos para quatro ou cinco jogos da Copa não terão mais serventia depois. No Amazonas, clubes como o América estão nos estertores. Enquanto isso, o Serra Dourada de Goiás, onde há tradição de futebol em nível nacional, foi descartado, porque Goiânia, distante 210 km da corte, ficou fora da lista.

No Ceará, um estádio que precisaria apenas de algum trato, foi posto praticamente no chão e deve consumir mais de 600 milhões do contribuinte. Em Pernambuco, nenhum dos três campos tradicionais será remodelado. A arena de lá está sendo construída a 25 km da capital, em São Lourenço da Mata, fora dos eixos naturais de transportes.

Em Minas, a reforma da Mineirão não sairá por menos de 700 milhões. Na Bahia, ao contrário das contas oficiais, a arena da Fonte Nova sairá por 835 milhões, segundo estimativas da Transparência Brasil.

Em suma, considerando os vícios das obras em nosso país e a participação preponderante do dinheiro público, já se prevê que essas construções somarão mais de 11 bilhões no final das contas.

Comparativos expõem as vísceras da malandragem: aqui mesmo, o Palmeiras desembolsará não mais de 300 milhões na nova Arena Palestra Itália, com 45 mil lugares. Já na Alemanha, dois novos estádios acabam de ser erguidos: a Prefeitura de Mainz, capital do Estado da Renânia-Palatinado, precisou de apenas o equivalente a 140 milhões de reais para seu estádio de 34 mil lugares, incluindo nessa conta 35 milhões para a infraestrutura no seu entorno. Já o estádio do Augsburg, na Bavária, com 25.579 assentos, saiu por menos do equivalente a100 milhões de reais.

África do Sul ficou no prejuízo

Falamos apenas dos gastos com as praças de esporte. Elas representam menos da metade das despesas em nome da copa previstas nas cidades. E o retorno? Ao contrário da Alemanha e Estados Unidos, que não precisaram fazer gastos extraordinários porque já tinha estrutura para os eventos, em termos de futebol o exemplo da África do Sul é referencial.

O país de Mandela gastou US$ 4,9 bilhões em estádios e infraestruturas, que gerariam rendas imediatas de US$ 930 milhões derivadas do afluxo de 450 mil turistas. Quando foi ver, a rede privada de serviços só faturou US$ 527 milhões dos 309 mil turistas que de fato entraram no país no mês da competição. Nas previsões da CBF, a nossa Copa atrairá 500 mil turistas, que gastarão 3 bilhões de reais, ou seja 4 vezes mais do que na África do Sul – um cálculo pra lá de alucinado.

Os est com exceção do Soccer City, de Johannesburgo, usado para jogos de rúgbi e shows, são conservados pela injeção de dinheiro público. A Cidade do Cabo paga US$ 4,5 milhões ao ano pela manutenção da arena de Green Point, erguida ao custo de US$ 650 milhões e usada apenas 12 vezes depois da Copa. Lá já discutem a demolição desse estádio ocioso.

Em se tratando de jogos olímpicos, só se pode falar de ganhos compensatórios mesmo nos de Barcelona, em 1992. Em contraste, o desastre de Atenas, em 2004, é visto como o ponto de partida da crise que levou a Grécia à bancarrota.

Num contexto internacional recheado de dúvidas, com os Estados Unidos na pindaíba e uma dívida colossal de 14 trilhões de dólares, tudo leva a crer que esses eventos vão ajudar a destrambelhar nossas vidas, ao contrário da falácia de quem já começou a engordar as contas com o desperdício do prelúdio luxuriante.

População já disse não aos gastos

Já há uma rejeição explícita das populações a essas farras. Uma pesquisa da Sport+Markt, divulgada há pouco, revelou a insatisfação da cidadania. No Rio de Janeiro, só 14,7% concordam com o uso de dinheiro público nos estádios. No Amazonas, 17%. Entre os que têm opinião formada, na cidade de São Paulo, 60,2% discordam e, no estado, essa rejeição chega a 64,2%. No país, dos que já têm opinião formada 63,7% disseram-se contrários aos gastos com estádios, superfaturados ou não.

No entanto, a onda avassaladora impulsionada pela mídia é capaz de nos encher os olhos de miragens orgásticas. E não é por acaso: a principal fonte de receita da FIFA com a Copa está na venda dos direitos de televisão para a qual há um grande intermediário que compra e revende os direitos para os principais países: a Infront Sports & Midia (ISM), operando através de sua subsidiária HBS (Host Broadcast Services). Há uma expectativa de que as imagens do certame alcançarão uma audiência acumulada de 30 bilhões de telespectadores, um atrativo apetitoso para os grandes anunciantes. É nesse nicho que a Rede Globo já está enturmada, embora tenha feito uma proposta 20% mais baixa do que a Record.

Haja o que houver nas duas competições, vê-se que a mídia é o segmento com maiores interesses e possibilidades de ganhos visíveis.

Daí, o empenho em dourar a pílula, independente do que possa acontecer a este país que não se pode dar ao luxo de jogar dinheiro fora.

Permitida a reprodução e repasse desta matéria, desde que informada a sua autoria.

O que se faria com o dinheiro gasto na preparação da Copa

O site Planeta Sustentável imaginou o que se gastaria com os 11 bilhões previstos para a Copa (essa previsão já está superada).

R$ 2,1 bi
ONDE Expansão do saneamento.
Para levar água tratada a 2,2 milhões de casas e coleta de lixo a 2,1 milhões - cerca de 20% do déficit de saneamento.

R$ 2,8 bi
ONDE Crédito para casas populares.
Para financiar a construção ou compra de 480 mil casas populares - 6% do déficit habitacional.

R$ 2,8 bi
ONDE Universalização da eletricidade.
Para levar luz a 1,6 milhão de pessoas no campo - 13% da população sem acesso à energia.

R$ 1,4 bi
ONDE Combate ao analfabetismo.
Para ensinar 600 mil jovens e adultos a ler e escrever - o que representa 4% a menos de analfabetos no país.

R$ 1,4 bi
ONDE Bolsa Família.
Para custear o programa por um ano para 1,8 milhão de famílias, que receberiam um auxílio mensal de R$ 62.

R$ 700 mi
ONDE Saúde da Família.
Para levar o programa Saúde da Família a mais 2 milhões de pessoas - superaria a população de Curitiba ou Recife.

domingo, 24 de julho de 2011

Para entender o morticínio da Noruega no contexto da indústria do ódio anti-islâmico

Falcões de Israel e Murdoch investiram pesado na guerra global racista e intolerante

"Estamos descobrindo agora que a própria mídia controla estados e governos. É perfeitamente razoável que tenha, também, construído os scripts das guerras, os resultados eleitorais, os atos de terrorismo e o descalabro geral que empurrou os EUA para uma década de selvagem e inútil derramamento de sangue, para vingar-se de atos de terrorismo que provavelmente, não foram obra de terroristas estrangeiros”.
Gordon Duff, veterano da guerra do Vietnã, editor sênior da Veterans Today. Sua carreira incluiu uma vasta experiência no setor bancário internacional, juntamente com áreas tão diversas como consultoria em contra-insurgência, tecnologias de defesa ou atuando como agente diplomático da ONU grupos humanitários.
Um documento de 1.500 páginas redigido, aparentemente, por Anders Behring Breivik (foto), o norueguês que matou 92 pessoas em dois atentados em Oslo na última sexta-feira, revela que o ataque já era preparado desde o outono de 2009. Breivik, de 32 anos, deixou para trás um manifesto detalhado descrevendo como se preparou para os ataques e convocando para uma guerra civil e cristã a fim de defender a Europa contra a ameaça de dominação muçulmana, divulgaram neste sábado as autoridades norueguesas e americanas que participam das investigações.


 O morticínio recorde que abalou a pacata Noruega dos brancos loiros de olhos azuis, torrão do mais elevado IDH do mundo, é o resultado assombroso da globalização do ódio e da intolerância, inserindo-se na mesma teia da irresponsabilidade midiática protagonizada pelo bilionário Rupert Murdoch, cujas façanhas inescrupulosas estão vindo à tona a partir dos criminosos grampos telefônicas da Grã-Bretanha, e da ofensiva agressiva do governo de Israel, intensificada após discurso em que Barack Obama admitiu apoio ao Estado palestino.

Essa matança só não cumpriu seu objetivo inteiramente porque a polícia prendeu o atirador, um ultradireitista norueguês de 32 anos, que não resistiu à prisão, nem tentou se matar após o crime. Até então, a mídia internacional já havia forjado uma declaração atribuída a um grupo islâmico, que teria assumido os atentados.

Desde os anos 90, a tranquilidade polar dos países nórdicos vem sendo contagiada pela propaganda explosiva da fronteira fechada aos emigrantes, especialmente aos islâmicos, produzindo uma seiva venenosa extraída da falácia de que “a cultura do país seria diluída pela imigração vinda de países com valores e religiões diferentes”.

Esse atentado não é uma surpresa para quem acompanha a manipulação mortífera de uma mídia patrocinadora de uma “guerra global” incensada a partir de Israel e do complexo sionista mundial, do qual Murdoch se fez a maior expressão, dotando-se de poderes superiores a qualquer governante.

Judeus pacifistas de vários países mundo já haviam detectado o perigo trágico que a intolerância de sionistas extremistas desenhava, ante o crescimento de vozes discordantes dentro de Israel, notadamente no âmbito universitário e no movimento PAZ AGORA, que ganha milhares de adesões em seus esforços para barrar a sanha terrorista do seu governo.

As resistências internas à implantação de colônias judaicas em território palestino implementadas pela coligação de extrema-direita crescem, mas provocam um traumático efeito inverso: os chefes dessa aliança - o premier Netanyahu, do partido Likud, de direita, e o ex-leão-de-chácara nascido na Moldávia soviética, Avigdor Lieberman, chefe de um partido com maioria de emigrantes russos e atual chanceler de Israel – estão bancando a intolerância anti-islâmica na Europa, tendo como principal ferramenta o império midiático de Murdoch, antigo colaborador da extrema direita no mundo. Nascido na Austrália, ele é cidadão e Israelense e ganhou em 1985 de Ronald Reagan também a cidadania norte-americana, condição legal indispensável para comprar uma das maiores redes de tv e vários jornais nos Estados Unidos.

O dono mundo que fabrica o ódio

Para alcançar meu raciocínio, vale a pena ler o artigo de Gordon Duff, escrito no Veterans Today, - - no qual ele perfila a natureza essencial dessa ultra-poderosa rede midiática:

“Já se começa a dizer que Murdoch controla, há no mínimo 20 anos, todo o sistema político dos EUA e da Grã-Bretanha. Tem poder para eleger e derrubar líderes nacionais, escolher políticas, aprovar leis. De onde vem tanto poder? Sabe-se hoje que vem de espionagem, gravações clandestinas, invasões de telefones e e-mails, suborno de autoridades e muita propaganda. Sim, mas... a serviço de que agenda? Aí está o xis da questão.
É possível que se trate de vender jornais de escândalos e de espionagem a favor de Israel, para empurrar a Grã-Bretanha e os EUA na direção de fazer guerras em nome de interesses de Israel? Há resposta simples.
A motivação básica de Murdoch nem é que ele opere “para Israel”. Murdoch é, provavelmente, o mais influente israelense que há hoje no mundo, muito mais poderoso que Netanyahu. O problema é que Murdoch é homem de idiossincrasias que só se podem descrever como “ultranacionalistas” pró-Israel.
Por isso Murdoch é ameaça grave. Os ultranacionalistas são conhecidos por apoiar guerras, planejar ataques terroristas, manipular populações até converter as pessoas a se matarem umas as outras por questões religiosas, por racismo, sempre semeando o medo e o pânico, quando não promovendo a ruína financeira de muitos”.
Essa visão coincide com as preocupações dos militantes da resistência pacifista dentro de Israel, como escreveu Carlo Strenger no Haaretz, dia 13 de julho passado:
“O resultado do sistemático insuflamento, por Netanyahu e Lieberman, dos temores existenciais dos israelenses é tangível: as pesquisas de opinião mostram que os israelenses estão profundamente pessimistas sobre a paz; na maioria não confiam nos palestinos. E na geração mais nova, a crença nos valores democráticos está erodida”.
Propaganda dirigida na raiz dos atentados na Noruega

Na busca da gênese dessa matança na Noruega não é forçado visualizar a propaganda da intolerâbcia anti-islâmica disseminada pelos falcões de Jerusalém em parceria com o poderoso chefão da mídia, agora desnudado com as revelações sobre os métodos ilegais e imorais de suas empresas jornalísticas.

Na sua análise sobre Anders Behring Breivik, o fazendeiro de 32 anos que confessou a matança na ilha de Utoeya, reconhecendo com frieza que foi “cruel, mas necessária”, Jorn Madslien, da BBC News, observa que ele não agiu sozinho, pois não é um simples “nacionalista”, mas um decidido extremista de direita, auto-definido como “fundamentalista cristão”, sintonizado com grupos que cultivam o medo para encurralar os governos escandinavos:

“Segundo o jornal norueguês Aftenposten o medo é aumentado pela mistura potencialmente explosiva de recessão econômica, aumento do racismo e um sentimento anti-islâmico ainda mais forte” - acentuou.

Os mais de 600 jovens trabalhistas atacados pelo extremista haviam aprovado uma resolução em que pediam ao governo do seu partido um boicote a Israel, proposta que formalizaram na quinta-feira ao ministro do Exterior, Jonas Gahr Store, durante a visita que este fez ao acampamento, na qual, como noticiou a agência Reuters, ele declarou apoio ao reconhecimento do Estado Palestino e à demolição do muro construído por Israel para cercar a área sob a autoridade palestina.

Militante da direita anti-islâmica

Ao prender o atirador e submetê-lo ao primeiro interrogatório, O chefe de polícia de Oslo, Sveinung Sponheim, disse que mensagens suas publicadas na internet mostram que ele “tem opiniões políticas voltadas para a direita, anti-islâmicas”.

Voltemos ao artigo de Gordon Duff:

“Quem Murdoch odeia acima de todos os demais ódios? Os muçulmanos, claro. Todos os muçulmanos são “do mal”. De todas as coisas que Murdoch toca, em todas as cenas que suas publicações (centenas!) exibem, em todas as notícias que distorcem, o item que nunca falta, o que nunca essa gangue de degoladores deixa de reafirmar é, sempre, o ódio deles contra os muçulmanos. Com isso, satisfazem os amigos em Israel”.
Há uma grande expectativa sobre o depoimento que Anders Behring Breivik deverá prestar perante um juiz, nesta segunda-feira, em Oslo. O nervosismo aumenta por sua frieza: ao contrário de outros envolvidos em ações semelhantes, ele nem tentou se matar, nem resistiu à ordem de prisão. Desde a noite de sábado, a polícia o mantém incomunicável, mas há que tema por uma “queima de arquivo” antes da audiência.

Para mim, não há dúvida de que ele não agiu sozinho, tal a abrangência das duas ações terroristas. Há suspeitas sobre o próprio comportamento da polícia, que só chegou à ilha, distante 40 km de Oslo, 45 minutos após o último disparo, numa ação que durou uma hora e meia.

Pior ainda: embora a matança de sábado tenha sido o ato mais trágico da Noruega desde o fim de segunda-guerra, em 1945, a mídia internacional tem sido econômica nas matérias a respeito, dando maior destaque à morte da jovem cantora Amy Winehouse, provavelmente por overdose de cocaína.

Como se vê, tem fundamento lógico entrelaçar no mesmo comentário a tragédia da Noruega, as peripécias de Murdoch e a ofensiva belicista das autoridades de Israel.

CORREÇÃO

Na minha coluna anterior, enviada através do JORNAL INSTANTÂNEO POR CORRESPONDÊNCIA, escrevi ALIENISTA, ao invés de ALIENÍGENA, erro que atribuo ao cansaço da madrugada.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Os alienígenas estão chegando pelos ares muito antes navegados

Movimentos orquestrados levam à desnacionalização das companhias aéreas e à invasão estrangeira

Em menos de um minuto um leilão deu a partida para a
desnacionalização da aviação comercial brasileira
“A nossa aviação civil, que já estava no buraco, agora recebeu a pá de cal – como aconteceu com a navegação de cabotagem, hoje na mão de estrangeiros. É claro que os EUA querem os céus abertos: as suas empresas são gigantescas e só uma delas tem mais que o triplo de aeronaves de grande porte que todo o Brasil junto. Resultado, dentro da receita operacional delas, o que é gerado no Brasil é percentualmente muito pequeno (3% a 5%) e isto vai permitir que elas, inicialmente, façam dumping até dando passagens grátis em nosso país. As empresas nacionais, se é que ainda existem, não conseguirão competir”
Comandante Marcelo Duarte, ex-vice-presidente da Associação dos Pilotos da Varig.

Porque hoje é 20 de julho, as nuvens pesadas que escondem nossas constelações me levam de volta a bordo do mais longo dos vôos, o que revela a rendição programada, em meio a turbulências que tantas vítimas inocentes vêm causando, como se nada mais houvesse disponível, nem mesmo um velho pára-quedas em farrapos. Uma rendição que submete nossos céus ao domínio de invasores alienígenas.

Hoje seria o dia do orgulho aéreo, pois lembra o nascimento do visionário Alberto Santos Dumont, nascido em 1873 nas Minas Gerais e admirado por suas façanhas plasmadas na mesma têmpera de Leonardo Da Vince. O desafio o fascinava e foi sob esse ímpeto que se jogou por inteiro na arte de fazer subir o mais pesado do que o ar.
Mas para o desdouro da efeméride, 20 de julho também foi sangrado há 5 anos pela maior vilania já perpetrada na história de nossa aviação, como ele jamais imaginaria: o leilão-relâmpago, a preço de banana, da mundialmente respeitada Varig, a que me referi antes, tendo por cenário tétrico um hangar do aeroporto batizado com seu nome legendário.
 O pior ainda se esconde nessas nuvens impudicas: como consequência direta da desmontagem da nossa octogenária companhia aérea, esta data ainda vai ser lembrada por um certo acerto já negociado, que levará à desnacionalização de nosso espaço aéreo doméstico, coisa que se consumará em questão de dias, quando o Senado da República sacramentar a reforma do Código Brasileiro de Aeronáutica para facilitar a maior participação do capital estrangeiro em nossas empesas, removendo os óbices à macro “fusão” da TAM com a LAN chilena e criando condições até para a contratação de pilotos estrangeiros, o que levará a um aviltamento ainda maior dessa profissão.

A votação do projeto de lei 6716/09, oriundo da Câmara, faz parte de uma operação casada que envolve também as privatizações dos aeroportos rentáveis e a remodelagem de todo o sistema de transportes aéreos, inspirada tão somente em interesses de grupos cobertos por “consultores” com trânsito livre nos centros desses podres poderes.
Com a mudança do artigo 181 do Código Aeronáutico, a participação do capital estrangeiro em nossa aviação comercial salta de 20 para 49%. Isso significa “entregar o ouro ao bandido”, estimulando movimentos correlatos que facilitarão a invasão dos nossos céus, como se o transporte aéreo fosse perder seu escopo estratégico, abrindo-se em leque à sanha de um mercado cuja única lei é a do ganho a qualquer preço. Um deles é a adesão do Brasil ao "open skies", sistema pelo qual os mais poderosos do mundo ganham entrada franco em nosso espaço aéreo.

Nichos dominados pelo duopólio

Para que fosse possível agora a desfiguração das empresas nacionais, engendrou-se um plano estratégico, que começou pelo sucateamento da Varig, a aérea mais tradicional e de maior inserção internacional, e ganhou corpo com a oligopolização do setor, que, por si, torna irrespirável a presença de terceiros nos aeroportos brasileiros.

Com a compra da Webjet (5% do mercado) a Gol passará a concentrar 61,4% das operações domésticas no aeroporto do Galeão (RJ); 57,8% em Confins (MG) e 51,2% em Curitiba (PR). O alto nível de concentração para o qual o mercado se direciona fica ainda mais evidente somando-se as participações da Gol e da TAM. As duas responderão por mais de 98% das operações no aeroporto internacional do Rio; 93,4% no de Brasília; e 92,9% em Congonhas.

Esse quadro monopolista aparece agora como pretexto para o franqueamento do setor ao capital estrangeiro. Quem considera esta única saída esquece que é a própria TAM, através de figuras conhecidas da corte, quem está movendo céus e terras para a aprovação da reforma desnacionalizante do Código.

Nossos céus mais vulneráveis
Em paralelo, o Brasil cedeu finalmente ao sistema "open skies" - ou céus abertos. A partir de março, com decorrência da visita de Obama, não existe mais exigência de reciprocidade nos vôos com destino aos Estados Unidos. No final do semestre, acordo semelhante foi fechado com os 27 países da União Européia.
Na prática, quem tiver mais bala na agulha vai voar mais. Por enquanto, essa abertura acontecerá apenas nas rotas internacionais. A exclusividade dos trajetos domésticos pelas empresas do próprio país é uma tradição em todo o mundo, com exceção da Europa, que vive um processo de integração continental.

Nos dias de hoje, porém, o Brasil é visto como um dos melhores mercados do mundo, dando vazão ao excesso de ofertas das aéreas estrangeiras. A portuguesa TAP que o diga. Com vôos diretos de Lisboa para Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Natal, Recife, Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte e Brasília, quase 30% do total de passageiros transportados pela companhia no mundo têm o Brasil como origem ou destino. Com a inauguração da linha Porto Alegre-Lisboa, a empresa chega à região Sul, onde ainda não atuava. Serão quatro frequências semanais, e cerca de 20 mil pessoas já fizeram reserva para a nova rota.

As empresas adotam políticas tarifárias atraentes, recorrendo ao dumping e redirecionando os destinos turísticos para fora do país. Uma passagem de ida e volta na TAPm de Porto Alegre a Lisboa, foi vendida até junho por R$ 1.714,00, menos do que de Porto Alegre para Fortaleza. Ao inaugurar sua linha Brasília-Montevidéu, em junho passado, a Pluma uruguaia lançou preços promocionais de R$ 480,00 – ida e volta.

Serviços baixa qualidade favorecem a desnacionalização

Com o duopólio das companhias brasileiras e a baixa qualidade dos seus serviços, o espaço aéreo está totalmente disponibilizado para as estrangeiras.

Revela-se agora, assim, o que movia a omissão dos governos na crise que levou à lona nossa maior transportadora: desde o destroço da Varig, com o que ela representava em padrão de serviços, pontualidade e atendimento, a aviação comercial brasileira embiocou nuvens abaixo, perdendo sua personalidade competitiva.

Com a privatização dos aeroportos em regimes de concessão,  não precisa ser especialista para antever a ampla desnacionalização de todos os segmentos dos transportes aéreos.

Aos poucos, desenha-se no horizonte o passo a passo macabro que levou ao sacrifício e humilhação de milhares de profissionais, com a irresponsável insolvência de um fundo de pensão e a consequente descrédito de todo o sistema em que se insere.

Esse horizonte, com certeza, não tem nada com a alma intrépida de Alberto Santos Dumont.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Varig, em busca de una fagulha de lucidez e respeito aos direitos humanos

Executivo e Judiciário protelam solução que resgataria os direitos de trabalhadores e aposentados do Aerus
Pedimos ao Vice-Ministro proteção da União aos nossos direitos, principalmente ao direito à vida que o próprio Estado está nos negando quando se recusa a reconhecer sua responsabilidade na tragédia VARIG/AERUS, que atinge mais de 40 mil pessoas, entre ex-trabalhadores da antiga VARIG, assistidos, participantes e pensionistas AERUS, Planos I e II VARIG”
Comandante Luiz Pereira, no relato da audiência que um grupo teve com o sub-chefe da Advocacia Geral da União.


Nestes tempos em que algumas fagulhas de lucidez atravessam a penumbra da inércia fatalista, cabe refrescar a cabeça dos cortesãos para um dos mais escabrosos atos já praticados nas barbas do governo, que demonstrou inegável cumplicidade com o golpe assestado contra a aviação nacional e, em especial, contra trabalhadores, aposentados da empresa mais enraizada no ramo, com prestígio no mundo inteiro e alta potencialidade competitiva em níveis internacionais.

Faz muito tempo que escrevo a respeito, com maior ou menor frequência. Escrevi muito antes do leilão-relâmpago de 2006, simbolicamente na data do nascimento de Santos Dumont, isto é num 20 de julho com as cores mórbidas das cartas marcadas, que selou a determinação mortífera, envolvendo Executivo e Judiciário, no que se pode chamar de verdadeira doação a um fundo de investimento norte-americano, representado por um chinês de maus hábitos.

Falo da Varig mais uma vez porque calar a respeito é crime. Falo, sobretudo, da mais preparada e mais homogênea corporação de profissionais altamente qualificados, responsáveis pelos melhores índices de segurança e desempenho conservados até mesmo nos seus estertores.

Essa trágica novela cujo fim parece ser de péssimo gosto tem muito a ver com a catarse política de hoje, em que o abuso no uso do poder em causa própria começa a se tornar insuportável e tem levado a conflitos surpreendentes, com risco para a própria forma marota de governabilidade, em voga desde priscas eras.

Uma trama sórdida e impiedosa

Porque o ato do governo federal na hora crucial, abandonando os trabalhadores à própria sorte e usando-os como cobaias de uma estranha lei de “recuperação das empresas” resultou claramente da intenção de desmontar o maior arcabouço nacional nesse mercado, favorecendo sem meias palavras interesses escusos, sustentados por lobistas da copa e da cozinha da corte.

O que aconteceu naqueles anos por determinação de um poder executivo hipócrita, que franqueia o BNDES a uma meia dúzia de empresas transnacionais, tomou forma de escândalo demoníaco a partir daquele 24 de março de 2009, em que a ministra Carmen Lúcia retirou da pauta o julgamento de uma ação da Varig, em nome de um acordo que deveria ter sido fechado em 60 dias. Passaram-se mais de 600 dias, não se falou mais em acordo, e o STF nada fez, porque parece em muitos casos um simulacro de Poder Judiciário.

Desde os primeiros capítulos, assistimos a uma trama sórdida, que mancha qualquer currículo político, pela natureza casada de suas cenas de perversidades: os trabalhadores ficaram sem seus direitos trabalhistas e os aposentados viram suas pensões evaporarem por conta da insolvência de um fundo de pensão que, em sendo autorizado e fiscalizado, tem o governo obrigatoriamente como seu fiador.

Em nenhum momento, em quase meia centena de artigos, eu tentei encobrir a irresponsabilidade dos administradores da empresa e do seu fundo de pensão, que foi inicialmente o fundo de toda a aviação comercial. Mas qualquer um sabe do caráter de uma empresa de transportes concedidos, de sua dependência de políticas públicas, como a que resultou na perniciosa defasagem tarifária, fonte dos desacertos que atingiram não apenas a Varig, mas também a Transbrasil e a Vasp.

A Varig, porém, sempre funcionou como um braço informal do governo, voando a seu pedido para aeroportos onde teria perdas e prestando serviços de toda natureza. Em 2002, quando fui ao Oriente Médio e à Espanha, foi mais fácil encontrar postos avançados da empresa (no caso de Telaviv, onde não pousava) do que de qualquer ente oficial.

Uma omissão imperdoável do governo

Quando a Varig começou a perder altura, não foi a única do seu porte. O 11 de setembro de 2001 levou à insolvência das grandes empresas dos Estados Unidos e Europa, todas, ao contrário da nossa, devidamente socorridas por seus governos.

Nessa época, já era de se esperar uma intervenção das autoridades aeronáuticas. No entanto, por coincidência, um bandido de carteirinha estava entrando no mercado com uma empresa sem qualquer apego ao escrúpulo e sem o menor respeito aos direitos trabalhistas e dos usuários de seus ônibus-voadores. Ele vinha de Brasília, em parceria com um governador corrupto e todos os vícios de um ambiente em que brilham os ladrões e espoliadores dos cofres públicos.

Desde aquela época, o governo tinha meios para impedir o débâcle da Varig, sugestões emanadas de seus próprios profissionais, que se dispuseram a assumir a empresa no que seria uma solução modelar para a época. No entanto, com a postura deprimente de um juiz todo poderoso, todos os que tinham poder se juntaram com o único objetivo de imolar a empresa, mesmo que isso custasse o sacrifício de milhares de profissionais, muitos dos quais vivem hoje numa espécie de exílio, trabalhando como pilotos nos quatro cantos do mundo.

As entidades dos trabalhadores da Varig ofereceram ao governo, através de várias autoridades, uma fórmula simples que injetaria combustível na empresa, preservava sua presença internacional e mantinha o mercado interno sob controle e responsabilidade de empresas nacionais, como é do próprio Código Aeronáutico.

No entanto, a máquina do poder foi direcionada deliberadamente para favorecer uma concorrente amiga e criar as condições para a entrega do nosso espaço aéreo a estrangeiras, como aconteceu na navegação de cabotagem.

A promessa de um acordo de metirinha

À falta de determinação política do governo, restou a expectativa do julgamento de um ação impetrada há quase 20 anos, na qual a responsabilidade do governo nos prejuízos sofridos tem sido reconhecida em várias instâncias e seria fatalmente no julgamento do STF, tal como aconteceu em 1997 em pleito idêntico impetrado pela Transbrasil.

No 24 de março de 2009, Executivo e Judiciário uniram-se para dar uma volta nos trabalhadores e aposentados, na falácia de um acordo possível, que não passava de uma artimanha para evitar o julgamento final de um processo, no qual seria gerada a pecúnia necessária ao ressarcimento dos beneficiários do Fundo Aerus, submetidos hoje a haitianas condições de humilhação e passando todo tipo de privação.

Neste momento, quando já se debitam quase 500 óbitos entre os aposentados ludibriados, não se vê mais do que jogo de cena, numa farsesca manipulação do que ainda resta de esperança entre as vítimas desse que é o maior desastre da aviação brasileira.

À falta de comando, alguns profissionais aposentados fazem das tripas coração para tentar tirar água da pedra. No último dia 6, o comandante aposentado Luiz Pereira e os comissários Antônio Melo, Edson Cardin, Ailton Ramos e Elizabeth Oliveira conseguiram conversar com o vice-chefe da Advocacia Geral da União, Fernando Luiz Albuquerque Faria. Lá, embora bem recebidos, ficaram sabendo que o governo tem umas contas bem diferentes das periciadas no processo e ainda acha que, ao invés de pagar, terá de receber da Varig, isto é, não haverá como abrir caminho ao resgate dos direitos dos beneficiários do Fundo Aerus. Essa mesma autoridade ainda disse que, se perder no STF, o governo remeterá a dívida para a longa fila dos precatórios, demonstrando não está nem aí para a rapina que vitimou os profissionais que tantos serviços prestaram ao país.

Ainda recentemente, no último dia 13, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, recebeu representante do Sindicato dos Aeronautas, acompanhada pelo senador Paulo Paim e pelo incansável advogado Castagna Maia, responsável pelas ações em defesa dos aposentados.

Mais uma vez se gerou uma réstia de esperança, prática muito comum que, no entanto, não tem dado em nada. Mas o senador Paim lembrou que é autor do projeto 147/10, que autoriza a União a cumprir seu dever institucional, isto é, indenizar os beneficiários do Aerus, providência que seria muito mais decente do que injetar uma grana preta para enriquecer ainda mais o dono do Pão de Açúcar e no socorro repetido às privatizadas que prestam péssimos serviços aos cidadãos e ainda contam com a generosidade do governo.

Você que não passa por esse sufoco tem de se incorporar a uma causa que hoje é de uma corporação, mas que, na inércia cristalizada, poderá se refletir em outros segmentos, inclusive no seu.

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Quem sou eu

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Pedro Porfirio
Cearense, nascido em 1943, Pedro Porfírio chegou ao Rio sozinho, aos 16 anos, indo ocupar o cargo de secretário da UBES. Aos 17, fez-se jornalista como repórter da ÚLTIMA HORA do Rio de Janeiro. Aos 18, já era o editor da RÁDIO HAVANA, em Cuba. Aos 20, de volta ao Brasil, dirigia o semanário das Ligas Camponesas. Passou pelo CORREIO DA MANHÃ, TV TUPI e, aos 26 anos, era Chefe de Redação da TRIBUNA DA IMPRENSA. Preso e torturado em 1969, depois do AI-5, permaneceu encarcerado um ano e meio. Em liberdade, enfrentou uma cruel discriminação. Tornou-se teatrólogo, com 8 peças encenadas e ganhou o Troféu Mambembe, por sua obra O BOM BURGUÊS. Seu último texto encenado, em 1982, foi BRASIL, MAME-O OU DEIXE-O. É autor de 7 livros, entre estes O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS, SEM e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Com a redemocratização e assumiu postos no governo do RJ: 1983, Coordenador das RA da Zona Norte: 1985 e em 1989, Secretário de Desenvolvimento Social; 1986, Presidente do Conselho de Contribuintes. Em 1992 foi eleito vereador na cidade do Rio de Janeiro pela primeira vez. Exerceu o mandato ainda nas legislaturas seguintes, até 2007.
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